sábado, 13 de abril de 2013

Sobre a traição




Não é difícil perceber como esta palavra mexe conosco e ao mesmo tempo sempre ganhou grande destaque em novelas e romance. O que significa esta palavra? Que multiplicidade de experiências ela encerra em si? O que podemos com certeza afirmar é que tememos ser traídos, porém a maioria das pessoas afirma já terem traído um momento ou outro de sua vida. Realmente é uma experiência ambígua na qual o destino nos pega antes mesmo de afirmarmos qualquer coisa a respeito do sentido por detrás da traição. A partir disso nos vem à questão: “É possível nos trair sem trair? Ou melhor, o que move a fidelidade?”. 

Carotenuto (2004) diz que antes mesmo do nascimento, somos fantasiados, “...quando ela fica sabendo que está esperando um filho, já fica fantasiando sobre ele”. E ainda completa dizendo que só existimos a partir da projeção de outro, precisamos disso, para existir precisamos que o self materno nos dê o sopro da vida através, primordialmente do nome. Assim, passamos a ser a projeção de nossos pais, tudo aquilo que eles não conseguiram ser, não reconhecem em si mesmos ou até todas as suas expectativas frustradas reencarnadas em uma nova possibilidade de ser, o filho. Logo, é como se estivéssemos fadados a trair, a se separar (tal qual Adão e Eva), do paraíso familiar. Em seu livro Amar Trair Aldo Carotenuto (2004) no apresenta as raízes linguísticas da palavra ‘traio’ que deriva do latino trado sendo composto de dois morfemas trans e do (= dar). Nesse sentido sempre vem à mente a idéia de dar alguma coisa que passa de uma mão a outra, tendo quase que o mesmo sentido da palavra tradição, que se refere a um conjunto de costumes passados de geração a geração.


Podemos vislumbrar que trair alguém em nossa cultura sempre foi visto como algo sujo, promíscuo e contra as leis morais dos “bons costumes”. Nos casamentos religiosos é comum que o noivo e a noiva realizem uma promessa de estarem unidos na saúde e na doença, na alegria e na tristeza até que a morte os separe. Tal dito, parte do pressuposto que o casal já se encontra unido a partir do momento que receberão a benção. Na maioria das vezes – como dito logo acima – tanto o homem como a mulher carregam um fardo, o fardo de se separar da família primária e construir uma família secundária, por isso ao casarem mesmo após a benção se encontram separados. Como o homem traz em si a imagem de uma primeira mulher (sua mãe) e a esposa de um primeiro homem (seu pai), muitas dinâmicas podem acontecer como a mulher se atrair (novamente o radical trado) por um homem que inconscientemente possui as características que ela internalizou de seu pai, portanto para fugir ao encontro com o pai a mulher constrói um homem ideal. Assim como o homem para fugir da mãe se atrairá por uma mulher ideal. Nesse sentido buscamos o igual a nós no outro, mas nos atraímos pelo que é diferente em nós mesmos, projetado no outro. Assim se manifesta o eros, o deus que flecha sempre qualidades opostas no sentido de uni-las de uma maneira ou de outra. O casal ainda se encontra separado por estar simplesmente se relacionando com a imagem que construiu para si mesmo de um homem ou mulher idealizados. A quebra disso implica na transmissão dos valores construídos individualmente de um para o outro, onde construídos podemos entender como refletidos e integrados. 





O que eu quis dizer no parágrafo anterior, é que a maioria das pessoas deve antes de tudo confrontar a imagem idealizada e projetada no outro, da mulher ou homem ideal. E é aqui onde a traição se insere, no momento de passar ao outro o que eu sou, não o que ele gostaria que eu fosse. Trair nesse sentido significa tomar propriedade do homem ou da mulher que eu sou, quem sabe tal experiência abra as portas da percepção a ponto de descobrirmos que não sabemos nada a respeito do outro, que tudo que ele (ela) demonstrava ser era na verdade o que eu pintava, era na verdade o que eu precisava em mim mesmo. Só quando eu trair a imagem que o outro tem de mim – me revelando como diverso – poderei trair a mim mesmo ao me entregar a ele (ela). 


E nessa dinâmica se encontra o significado, a verdadeira união matrimonial, a união de duas solidões, de duas almas solitárias se construindo uma na outra. Assim podemos não taxar a traição ou elevá-la as alturas como algo que muitos fazem hoje no sentido de valorizar o próprio ego. Mas compreender a traição como uma passagem, como uma experiência de frustração de todas as expectativas idealizantes projetadas em nós que abrimos mão para tomar propriedade daquilo que somos. Já para o traído a experiência de vazio, de perda de significado e de abandono, é talvez a experiência de total desconhecimento e descontrole do que o outro possa ser. E ao mesmo tempo de quebra de referência da imagem construída a respeito do outro, é ai que podemos ver que o outro encarna em si um universo o qual cada vez que proponho conhece-lo o descubro mais misterioso e próximo de mim. 

“A traição nos põe, portanto, diante de nós próprios; antes, parece que é só na traição que se torna possível esse pôr-nos diante de nós próprios, esse cessarmos de viver em reflexos que desconhecemos” (Carl Gustav Jung).

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