segunda-feira, 22 de outubro de 2012

7 Passos para entender os seus pensamentos e sentimentos


Os pensamentos comandam a nossa vida. Esta é uma afirmação incontestável. Mas até que ponto nós orientamos deliberadamente e conscientemente os nossos pensamentos? Não é por certo menos verdade, que por vezes, os nossos sentimentos e emoções sobrepõem-se aos nossos pensamentos, e tomam o comanado das operações. Então, até que ponto conseguimos regular os sentimentos e emoções, quando estes entram em conflito com os pensamentos?
Pretendo esclarecer o leitor com informação que possa ajudar a melhor responder a algumas das questões anteriores. Irei também apresentar alguns passos e estratégias que permitirão entender e lidar de forma mais adequada e clara com os seus pensamentos e sentimentos.

DESENVOLVER CONSCIÊNCIA DO DIÁLOGO INTERNO

O seus pensamentos são como que um diálogo interno. Usualmente temos uma média de cerca de seis mil pensamentos por dia, a maioria dos quais costumamos repetir para nós mesmos. Em muitos casos, você aprendeu a ter esses pensamentos a partir de experiências na interação com os seus familiares na infância, e foram repetidos a partir desse momento. Ao longo da vida, as aprendizagens que fazemos seguem o mesmo princípio. Considerando que as habilidades cognitivas não ficam plenamente desenvolvidas até entrarmos na casa dos vinte anos, consegue facilmente imaginar quantos dos pensamentos que construiu até essa data podem não lhe servir mais.
triste contente

Qual a razão para desenvolver a consciência do seu diálogo interno?

A sua capacidade de escolher como pensa acerca de si mesmo, gira em torno de  conseguir autoregular-se, ou escolher a sua resposta a acontecimentos desencadeantes. Expliquei aprofundadamente este assunto no artigo: Autoregulação, para sentir-se melhor foque-se no mais importante.
Primeiro, porque ao tornar-se consciente do que diz a si mesmo, permite que você, ao invés das suas emoções, intencionalmente direccione as suas escolhas. A sua felicidade, bem-estar e sucesso dependem disso. No entanto, existe o reverso da medalha, podendo tornar-se crítico, porque os seus pensamentos ativam os processos emocionais dentro de você. Como sabemos as emoções são poderosas, a nosso favor ou contra nós elas libertam uma tremenda energia que conduz na grande maioria das vezes os nossos comportamentos.
Então temos de encarar a verdade nua e crua, de que na grande maioria das vezes não temos plena consciência dos nossos pensamentos e consequentemente do nosso diálogo interno. Por vezes ativamos emoções e sentimentos que vão condicionar as nossas escolhas, influenciando a seu belo prazer os nossos comportamentos.
A saber: Os seus pensamentos, e as crenças que os suportam, accionam automaticamente as emoções.
Ainda que os acontecimentos e ações de algumas pessoas possam provocar em nós reações e sentimentos desagradáveis, elas não os causam. O que verdadeiramente está na causa daquilo que sentimos e fazemos é o que dizemos a nós mesmos. E, a maioria do que dizemos a nós mesmos acontece subconscientemente. Isto decorre das crenças que mantemos num determinado momento, as quais orientam inconscientemente o nosso diálogo interno e consequentes comportamentos. No fundo, é como se deixássemos de ouvir os nossos próprios diálogos e nem sequer tomássemos consciência dos nossos pensamentos, que por sua vez alimentam as nossas emoções, e vice-versa, por vezes num ciclo automático. Como se estivéssemos a ser aquilo que somos, sem consciência alargada do que estamos a ser, impedido que possamos mudar alguns dos nossos comportamentos. Expliquei aprofundadamente este assunto nos artigos: Cuidado com as suas palavras, 8 formas de otimizar o seu diálogo interno e Abandone a negatividade, acabe com o diálogo auto-crítico.
A saber: Quando você, ao invés das suas emoções, fica no comando do que pensa, fica igualmente no comando dos seus comportamentos, e assim consegue influenciar deliberadamente  os acontecimentos na sua vida. Desenvolver o autoconhecimento é o primeiro passo para transformar os seus pensamentos.
Segundo, para entender o poder das suas emoções. As emoções são uma tremenda energia em movimento, fornecem-nos motivo para a ação, influenciando aquilo que pensamos e a forma como pensamos. Neste sentido, as suas emoções são os seus “sinais de ação” ou “indicadores“. Tal como uma bússola, os seus sentimentos fornecem-lhe informação (subtil) relativamente aos seus acontecimentos de vida. Você é informado se as coisas que estão a acontecer estão ou não de acordo com os seus objetivos, ou visão! O seu sucesso na superação de problemas está diretamente relacionado à sua capacidade de experienciar uma alargada gama de emoções, e estas, por sua vez informam-no momento a momento se a sua decisão lhe serve ou não.
Para aprofundar o assunto, leia: Aumente o seu sucesso entendendo as suas emoções.

APRENDER A LER AS SUAS EMOÇÕES DESAGRADÁVEIS

As emoções agradáveis ou que o fazem ”sentir-se bem“, como por exemplo, a alegria, confiança,felicidade, dizem-lhe que as suas necessidades ou impulsos internos estão a ser satisfeitos, no entanto, esses sentimentos podem ser enganosos. Nem todas as coisas que criam sentimentos felizes são saudáveis e benéficos, como por exemplo, alimentos viciantes, substâncias aditivas ou atividades perniciosas.
No caso de algumas emoções desagradáveis​​, elas são sentidas através de sinais ou sintomas que na grande maioria das vezes identificamos como stress, angústia, nó na garganta, borboletas no estômago, tensão muscular, agitação motora, sudação, batimento cardíaco acelerado, entre outros. Muitos dos acontecimentos que causam stress, como por exemplo, lidar com uma questão importante ou fazer um exame, são emocionalmente, mentalmente e fisicamente saudáveis​​. Toda a ativação fisiológica (por vezes interpretada como desagradável) ajudam-no a aprender, crescer, realizar, desempenhar, criar e fazer coisas extraordinárias!
É especialmente vital, portanto, aprender a conectar-se e a levar em consideração algumas das suas emoções que considera dolorosas, desagradáveis ​​ou que o fazem ”sentir-se mal“, tais como raiva, culpa, vergonha, dor e ansiedade. Elas fornecem uma grande quantidade de informações essenciais que as emoções agradáveis​​ não lhe dão. Servem-lhe como “sinais de ação” ou “indicadores“, indicando-lhe onde você está relativamente ao que quer, aspira ou deseja ser. Tal como as emoções baseadas no medo, grande parte das outras emoções negativas (desagradáveis) permitem que você entenda que possíveis ações e mudanças melhor apoiariam os seus objetivos ou visão. Expliquei aprofundadamente este assunto no artigo: Descubra o poder dos sentimentos negativos.

Apresento sete passos para desenvolver a consciência dos seus sentimentos e a  respetiva conexão com os seus pensamentos:

PASSO 1: SELECIONE UMA SITUAÇÃO DESENCADEANTE

Faça uma lista de acontecimentos que provocam sentimentos perturbadores, desesperança ou raiva em você. Em seguida, selecione o menos desafiador ou perturbador para iniciar o processo de exposição e aprender a lidar com esses pensamentos e sentimentos. Estabeleça uma hierarquia (do menos perturbador para o mais perturbador). Pouco a pouco, com a prática, uma de cada vez, você pode ir enfrentado as situações mais exigentes, vai trabalhando o seu caminho gradualmente até chegar aos mais desafiadores. Isso pode levar dias ou semanas, e requer paciência.
Durante o processo é importante saber que é necessário propor-se a sair da sua zona de conforto, enfrentado situações/pensamento/sentimentos que lhe causam incómodo e angústia, mas também não deverá expor-se demasiado e ficar esmagado pelo processo. Em qualquer momento, ao estar a lidar com os pensamentos e sentimentos perturbadores, se isso se  tornar emocionalmente demasiado  intenso, sentido-se a perder o controle da situação ao ponto de diminuir o seu bem-estar psicológico, deve parar o processo. Neste caso, você deve ponderar procurar ajuda profissional de um psicólogo.

PASSO 2: FOCALIZE-SE NO PRESENTE ATRAVÉS DA RESPIRAÇÃO

Depois de selecionar o gatilho (situação/pensamento/sentimento) sobre o qual pretende refletir, é importante que mantenha a tranquilidade e esteja mentalmente disponível para avaliar-se. O processo que permite colocar-se nesse estado é a respiração. Faça uma pausa por um momento, faça 3 a 5 respirações lentas e profundas (respiração diafragmática/barriga), e permita-se relaxar. Focalize-se na sua respiração, com os olhos fechados, faça um scanner ao seu corpo a partir do topo da sua cabeça até à ponta dos seus dedos dos pés, observando e libertando alguma tensão ou firmeza que possa estar a sentir.
Imagine-se num lugar seguro e aprazível. Lembre-se que você não é as suas emoções ou pensamentos. Você é aquele que pensa e sente, é o observador, é o criador  das suas escolhas, emoções e pensamentos. Tente interiorizar este conceito, diga a si mesmo que esta é uma boa notícia. Isso significa que você pode aprender a estar no comando das suas respostas, e ninguém pode “fazer-lhe” sentir-se de uma certa maneira sem a sua permissão. Você é o observador das suas emoções. Você é aquele que pode analisar e avaliar se as emoções que está a sentir lhe servem relativamente ao que está a acontecer na sua vida.
Leve em consideração que todas as emoções que você experiencia estão relacionados com a forma como olha o mundo e estabelecem um forte relação com as suas experiências passadas. Num mundo em constante evolução e mudança, por vezes as nossas ”velhas” estratégias emocionais ficam desatualizadas, não nos servem mais, prejudicando-nos. No entanto, as emoções e os pensamentos automáticos associados devem ser levados em consideração, mas sempre tendo a consciência de avaliar se para a situação presente estão a ser um bom orientador ou se precisam de ser ”orientadas” por aquele que as sente, e por aquele que pode criar outros pensamentos, você mesmo.
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PASSO 3: IDENTIFICAR E SENTIR AS SUAS EMOÇÕES E SENTIMENTOS

Sentindo-se relaxado e centrado na sua respiração, focalize-se no gatilho selecionado, talvez recordando a sua ocorrência mais recente. Sem julgar, faça uma pausa para tomar consciência dos seus sentimentos e sensações corporais. Observe todas as emoções e sentimentos que você sente dentro de si, à medida que vai respirando de forma lenta e profunda. Pergunte a si mesmo, “O que estou sentindo agora?”
Por exemplo, se você sentir raiva, perceba que outras emoções podem estar associadas. A raiva é sempre uma emoção secundária que entra em cena para protegê-lo de sentir outras emoções como a vulnerabilidade, vergonha, ou o medo. Pergunte a si mesmo “O que sustenta esta raiva?”
Que sentimentos e emoções você sente? Anote-os numa folha de papel.

PASSO 4: SENTIR E PERCEBER A LOCALIZAÇÃO DE TODAS AS SENSAÇÕES NO SEU CORPO

As emoções que sentimos têm a sua expressão no corpo. É importante ganharmos o hábito de percebermos em que parte do corpo as nossas emoções se manifestam. Focalize-se durante alguns segundos nas suas emoções de momento, e observe em que parte do seu corpo sente as sensações físicas. Para cada uma das emoções despertadas, pergunte a si mesmo, que sensações você sente no seu corpo quando imagina a situação ou se foca no pensamento desencadeador? Observe a localização dessas sensações físicas. Com a sua atenção fixa nessas sensações, respire profundamente, e coloque delicadamente uma ou ambas as mãos no sítio do corpo onde a sensação se faz sentir. À medida que esse processo se desenrola, conscientemente deixe ir qualquer impulso que possa estar a fazer com que fixe, corrija, pare, reprima ou julgue qualquer das suas emoções e sensações. Continuar a sondar o seu corpo, percebendo que as sensações podem diminuir em intensidade. Se a raiva, ou outra emoção primária que esteja a sentir permanecer, continue perguntando: “O que mais estou sentindo?
Abordei o assunto da vantagem de lermos as sensações físicas que as nossas emoções têm no nosso corpo, no artigo: Honestidade emocional, uma mais valia para si e seus relacionamentos. Quando interpretamos as nossas emoções de forma limitativa e subtil numa ou duas palavras, como por exemplo, sinto  raiva, tristezafelicidade e assim por diante, corremos o risco de fazer avaliações obtusas e que nos remetem para padrões de pensamentos cristalizados.
É mais funcional descrever a forma como essas mesmas emoções são sentidas no corpo. Em seguida apresento um exemplo benéfico e outro prejudicial de descrevermos as nossas emoções primárias:
Exemplo 1 (benéfico): “Sinto uma energia enorme em todo o meu corpo, sinto como se os meus músculos quisessem sair do meu corpo e o coração saísse pela boca.”
Exemplo 2 (prejudicial): “Sinto-me com raiva, só me apetece fazer uma asneira.”
Descreva as sensações sentidas no seu corpo. Na coluna ao lado de cada emoção que você listou no passo 3, registe as sensações que você sente, e onde você sente .

PASSO 5: ACEITAR OS SEUS SENTIMENTOS E TER CERTEZA QUE PODE FAZER ALGO PARA PROMOVER OUTROS QUE LHE SIRVAM

Lembre-se que você não é as suas emoções. Você é o observador das suas emoções. As emoções são energia, e aquilo que sentimos são impulsos de energia intensamente carregada, podendo estar ligado à situação presente ou ligado a situações do passado. Se nos debruçarmos sobre os sentimentos negativos (desagradáveis), os quais você provavelmente não deseja estar a sentir, relembro-o que você pode escolher, se quiser, fazer algo para substituir esses sentimentos não desejados. Veja que não disse evitar, eliminar ou suprimir, mas sim substituir ou criar outros que deseje. No entanto, para que esse processo possa ser possível de realizar e tornar-se eficaz, um primeiro passo tem de ser dado: aceitar o que está a sentir. Isto porque não tem como não sentir aquilo que se passa no seu corpo, o qual está preparado e programado para sentir.
Dado o primeiro passo: aceitação, (intencionalmente e deliberadamente optar por aceitar os seus sentimentos dolorosos, e naturais) com base nas circunstâncias do que você diz para si mesmo. De forma calma e confiante afirme: “Eu aceito o que estou sentindo … neste momento.” Diga isso para si mesmo, silenciosamente ou (quando possível) em voz alta: “Eu posso lidar com esta emoção … Eu souemocionalmente forte e capaz de lidar com isto de forma inteligente, com facilidade, com calma.”
A poderosa forma de obter influência sobre as emoções ou sentimentos negativos (desde que sejam perturbadores) é relembrar um momento em que você experimentou uma emoção semelhante e lidou com isso de forma eficaz e com sucesso, diminuindo o mal-estar psicológico e restabelecendo o equilíbrio emocional. Se você já lidou com sucesso com algo semelhante no passado, você pode conseguir transferir esse aprendizado para o presente e para outras situações ou sentimentos. Diga a si mesmo: “Eu já consegui no passado, consigo agora, e conseguirei no futuro.” Repita as afirmações tantas vezes quanto necessário, até que sinta uma mudança positiva no seu estado emocional. Durante o processo relembre-se de voltar a utilizar a respiração lenta e profunda (isto permite diminuir a ansiedade e promove o relaxamento e tranquilidade).
Cada vez que você lida com a emoção, e é bem sucedido, adiciona essa experiência positiva e capacitadora ao seu repertório de sucessos. Isso vai fazer crescer e fortalecer a sua confiança e habilidade para lidar com futuras emoções arrebatadoras. Você vai desenvolvendo a sua força emocional à medida que se propõe a aceitar aquilo que sente e a encontrar uma forma deautoregulação dos seus estados emocionais.
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PASSO 6: IDENTIFICAR O QUE DIZ A SI MESMO QUE ESTEJA A DESENCADEAR AS EMOÇÕES DOLOROSAS

Em seguida, observe que pensamentos que estão aparecendo na sua mente quando você imagina o acontecimento desencadeador, em particular, qualquer padrão de pensamentos tóxicos. Os nossos pensamentos disparam automaticamente emoções e sensações físicas no corpo. Existe uma birecionalidade entre o cérebro e o corpo, verificando-se uma influência mútua.
Assista a esses pensamentos tentando não se perturbar, não julgando. Observe esses pensamentos como se fossem automóveis a passar à porta de sua casa, um após o outro, visualizando-os por breves momentos para em seguida os deixar ir. No entanto, caso você não consiga evitar julgar esses pensamentos, anote o seu diálogo interno numa outra coluna, ao lado do registo da emoções e sensações físicas que anteriormente listou nos passos 3 e 4.

PASSO 7: CONECTE-SE A SI MESMO PARA ENTENDER E VALIDAR A EXPERIÊNCIA DO EXERCÍCIO

Lembre-se que, apesar de outras pessoas ou situações poderem contribuir para desencadear sentimentos dolorosos em você,  nunca são a causa. O seu diálogo interno ou “auto-verbalização” é a causa de todas as emoções dolorosas que possa sentir, como sentimento de culpa ou frustração, ressentimento ou raiva. Não estou a querer transmitir-lhe que o fato de poder estar a ter sentimentos negativos que por sua vez afetam o seu equilíbrio emocional e bem-estar psicológico, não possa estar relacionado com os acontecimentos de vida menos favoráveis que possam ter surgido na sua vida, nada disso. Claro que tem toda a legitimidade para pode estar a sentir dor emocional. No entanto, essa dor emocional emerge de uma avaliação sua acerca daquilo que está a viver e não concretamente da situação em si.
É importante que saiba que aquilo que diz a si mesmo também faz disparar sensações físicas no seu corpo. Esta é uma boa notícia. Se você perceber que aquilo que acciona os seus gatilhos (relativamente a situações específicas ou ações) é exatamente o que provoca as emoções perturbadoras dentro de você, assim sendo,  pode optar por mudar o que diz a si mesmo. Você pode optar por criar pensamentos que o acalmem e capacitem a sua confiança e habilidade para fazer escolhas deliberadas.
Faça uma nota mental de que: Esta é realmente uma novidade, muito boa! Isso significa que você é a única pessoa responsável pelas suas respostas emocionais, pensamentos e ações. Você tem a capacidade de proteger a sua felicidade e paz de espírito independente da situação em que se encontra de momento.
A saber: Ninguém poderá “fazer-lhe” sentir de uma certa maneira, a menos que você permita.
Com a afirmação anterior em mente, crie declarações que afirmem e validem a sua experiência, como por exemplo: “Faz sentido que eu me sinta sobrecarregado, porque eu estou dizendo a mim mesmo, eu nunca vou conseguir tal feito … isto é demais para mim … eu não posso lidar com isto. ”
Em resumo: Os pensamentos desencadeiam sentimentos, e os sentimentos comunicam informações vitais sobre a melhor forma de viver a sua vida para sobreviver e prosperar. À medida que a sua consciência aumenta acerca de que emoções e sensações você experimenta em resposta a certos pensamentos, cada vez mais compreenderá melhor a forte ligação entre as suas palavras ou pensamentos (diálogo interno) e as suas emoções e sensações físicas.
Quando você entender o conceito anterior e começar a praticar isso no seu dia-a-dia, irá ganharforça emocional suficiente para regular os seus estados emocionais. O mais extraordinário é que, simplesmente fazendo algumas mudanças nos seus pensamentos (substituir pensamentos negativos por pensamentos positivos), você pode melhorar o curso da sua vida, escolher conscientemente como vai experienciar os eventos, de uma forma que permita que você permaneça no curso da vida enriquecedora que escolheu. As suas emoções, especialmente as mais dolorosos, permitem que você saiba onde se encontra no caminho para a vida que você aspira. Depois de entender o poder que as suas emoções têm em moldar a  sua vida, e como elas influenciam os seus pensamentos (de forma positiva e negativa), será mais fácil optar por parar de evitar, minimizar ou olhar de forma depreciativa para elas. Expliquei aprofundadamente estes assunto no artigo: Como implementar o pensamento positivo na sua vida?
No mar da vida, os sentimentos são o seu sistema de navegação.

SERMÃO SOBRE A INJÚRIA

O Bem-Aventurado observou os costumes da sociedade e notou quanta miséria decorre da malícia e de estúpidas ofensas feitas somente para satisfazer a má vontade e o orgulho.
Disse, então, o Buda:
- Se um homem insensatamente me faz mal, eu o pago com a proteção de meu desinteressado amor. Quanto mais mal vir dele, mais bondade sairá de mim.
Certo homem insensato, sabendo que Buda seguia o principio de amor que recomenda revidar o mal com o bem, começou a insultá-lo; Buda permaneceu em silêncio lamentando sua insensatez. Quando o homem terminou de insultar, Buda o chamou dizendo:
- Filho, se um homem declina aceitar a dádiva que lhe é feita a quem esta pertencerá? – E ele respondeu: – Neste caso a dádiva pertencerá ao ofertante.
Prosseguindo, Buda disse:
- Meu filho, tu me injuriaste, mas eu declino aceitar teus insultos, rogo-te guarda-los tu mesmo. Não te será isto uma fonte de desgosto? Como o eco pertence ao som e a sombra à substância, assim o mal recairá sobre quem o causou; abstém-te, pois, de atos maus!
O insultante não respondeu e Buda continuou:
- O homem perverso que censura o virtuoso é como aquele que olha para o alto e escarra para o céu: o escarro não mancha o céu, mas recai e suja a sua própria pessoa. o caluniador é como aquele que arremessa pé sobre outro, quando o vento sopra contrário; o mal recairá sobre quem o lançou. O homem virtuoso não pode ser atingido e o mal, que o outro pretendia infligir-lhe, volta-se contra ele.
O insultante partiu envergonhado, mas voltou depois e refugiou-se em Buda, no Dhamma e no Sangha.
Nota: O sermão sobre a injúria foi retirado do artigo: Budismo – Psicologia do Autoconhecimento (Dr. Georges da Silva e Rita Homenko)
Abraço

CIÚMES, PAIXÃO, ÓDIO, SEDUÇÃO, SENSIBILIDADE (ESTUDO PSICOLÓGICO DO AMOR E OS SENTIMENTOS QUE O ACOMPANHAM).


Realmente nada começa tão doce e afável terminando em amargura e desespero como o problema do amor. Podemos o encarar como um drama também, justamente pelo mesmo trazer outros tipos de emoções ou vivências às quais boa parte das pessoas não tem o preparo adequado. Se refletirmos bastante iremos notar que tal área já é muito mais difícil de se obter êxito do que um emprego ou boa ocupação. Todos também já perceberam que quanto maior a independência econômica em qualquer dos sexos maior o distanciamento emocional, não apenas pelo trabalho e sucção que a ambição produz, mas pela fuga e medo da frustração por gostar ou se entregar para alguém, embora tal fenômeno não seja privilégio de uma classe social propriamente dita. O trauma nessa área começa tão cedo como os valores econômicos inculcados precocemente na criança. Escrevi em diversos outros estudos que a grande problemática do final do século vinte e começo deste é a solidão sem nenhuma sombra de dúvida. Fator da máxima contradição humana; tendo a função de afastamento de uma decepção, ao mesmo tempo em que gera uma carência abissal nas necessidades afetivas do sujeito. Infelizmente nenhum método de educação ensina alguém sobre a dificuldade num relacionamento.

A paixão e sedução contidas na questão do amor encerram quase sempre elementos de poder, disputa e controle sobre o parceiro. O sentir-se “embriagado” pela paixão diz muito mais da necessidade de fuga das pessoas para a grande infelicidade vivida no dia a dia, assim sendo, tal fenômeno age como uma espécie de droga ou narcotizante da falta de sentido em relação a outro drama moderno, a rotina. A sedução atua quase sempre no predomínio estético ou sexual sobre determinada pessoa. É o uso intencional de um instrumento condicionado e valorizado pela sociedade, objetivando a adulação das características narcisistas do sujeito. Em tese também podemos definir que tanto a paixão quanto a sedução são uma espécie de rebelião ou protesto inconsciente contra a inevitável morte ou insatisfação no relacionamento. Tentam passar um ápice de uma durabilidade do gozo ou êxtase absolutamente questionável.
A sedução é a mais tenra ilusão de que o outro detém a chave perfeita para a satisfação completa de nossos desejos, e sempre nos esquecemos que preço o mesmo irá cobrar por tal tarefa; já a paixão é o sonho máximo de que seremos correspondidos constantemente, de que jamais poderá haver uma desaceleração da vontade e prazer.

A sensibilidade abre outro terreno árduo para sua compreensão plena. Freqüentemente é cobrada por um ou ambos os parceiros, embora mais tarde se queixem de seus efeitos colaterais. Outro grande erro é achar que a mesma só se manifestaria no pólo positivo, quando a grande verdade é que funciona como uma esponja que absorve todo tipo de amargura ou mazela emocional. Não basta apenas perceber o problema da contradição, dialética ou a oposição nos diferentes tipos de vivências e sentimentos, mas, sobretudo, enxergar como foram construídos no decorrer de nossa história de vida. O amor existe e sem nenhuma dúvida é uma necessidade vital, o grande problema é sincronizar sua dose, pois ambos os pólos descompensados podem ser fatais; tanto a falta que gera a mais pura carência, ou o que alguns acham que seja seu superlativo, o ciúme, também totalmente destrutivo em quase todas as relações. O importante não é e nunca foi à definição do que seja o amor, mas apenas a raridade do fenômeno nas diferentes culturas e épocas. O romantismo, a poesia e outros adornos apenas deram pistas ou serviram de muletas na construção de tão complexo sentimento humano. A tese central deste texto é exatamente a ligação do desejo ou necessidade com outras tarefas que são colocadas concomitantemente para a pessoa; mas como somos na maioria das vezes extremamente alienados, achamos que resolveremos um problema de cada vez.

O que precisa ser pesquisado é justamente como e quando alguém consegue obter a experiência do amor. Alguns advogam que o mesmo aparece após a vivência dolorosa de experiências desagradáveis, se mantendo intacta a esperança e fé do sujeito no seu potencial afetivo, diria que é algo bem raro em nossa atualidade, dominada por um rancor borbulhante em relação ao passado de frustração e mágoa. Estes dois últimos sentimentos produzem uma impermeabilização completa em relação a qualquer nova tentativa de entrega. Nossa era está repleta dessa absurda neurose, sendo que se procura a mais absoluta perfeição ou garantia para após começar a suposta troca. Tal prática nefasta revela não apenas o medo exposto anteriormente de uma nova frustração, mas que a pessoa que se deixou abalar não tem condição alguma para a experiência do amor, justamente por essa fragilidade e incapacidade de lidar com a perda.É uma criança completa no plano emocional, tentando forçar uma adequação às suas expectativas estéticas ou econômicas. Obviamente tal indivíduo não almeja em hipótese alguma a contemplação do amor, mas exclusivamente a veneração de seu conteúdo ambicioso e egoísta, com a desculpa de que é alguém especial e que precisa valorizar a si próprio, quando na verdade está o tempo todo participando de uma espécie de leilão de suas emoções.

Na verdade todas as barreiras citadas que impedem a verdadeira troca dizem de um ser que não deseja expor sua fragilidade, justamente por se considerar inferiorizado no plano emocional, e concomitante medo de ficar envolvido, pois para tal tipo de pessoa tal fenômeno é uma derrota, pois vê todo o relacionamento sobre a ótica do poder ou quem domina em tal esfera; então para fugir do conflito busca exigências irreais. Boa parte da procura da estética se encerra neste quadro, se escondendo uma grande deficiência afetiva embaixo de uma perfeição corporal sancionada pelo sistema de consumo.

Alguns filósofos e psicólogos tentaram definir o amor como uma experiência em que há maior empenho na satisfação do outro do que com suas próprias necessidades. Embora tal conceito seja louvável do ponto de vista humanista, diria que além desta capacidade inata para perceber o outro, muito mais importante é ter a certeza do potencial afetivo da pessoa que se ama, tendo a confiança de que a mesma reagirá com gratidão quando devotarmos para ela os mais nobres investimentos de nossa alma; ao contrário da inveja e incômodo que muitas pessoas demonstram ao serem ajudadas ou amparadas; enfim o desafio de todos é aferir se o outro também é capaz não apenas de trocar, mas se valoriza aquilo que o parceiro julga ser suas qualidades mais profundas. A baixa estima é um câncer para o processo afetivo. Nenhuma chama permanece acessa sem o incremento de determinado combustível. A derrocada amorosa se dá quando um dos dois apenas almeja retirar sem repor, ou o outro também não faz a mínima questão de crescer ou vivenciar algo novo. O problema de alguém se tornar insensível não diz apenas de uma fuga perante o medo do sofrimento, pois todos querendo ou não passarão por tal infortúnio; o que ninguém admite é vivenciar algo único, sendo assim a chamada opção por não ser sensível (do ponto de vista positivo como expliquei acima), é se afastar da sensação de solidão que um sentimento intenso produz. Quase ninguém almeja ser pioneiro no terreno emocional, a liderança e poder se focam no plano material. A prova maior disso tudo é que sempre um dos parceiros se queixa de que o outro doa muito menos na relação, como se estivesse se preparando para uma retirada ou abandono.

Outro fenômeno moderno no terreno afetivo é a questão do tédio precoce nos relacionamentos. Este fator está associado diretamente ao transporte do consumismo social para a esfera privada do indivíduo. É um tanto óbvio tal ocorrido. Como conseguiremos algo um pouco duradouro se nossa mente é corrompida diariamente pelo descartável produzido pelo desejo de consumo? Boa parte do fracasso nos relacionamentos é produzida pela falta de inteligência e percepção deste acontecimento diário. Que as pessoas gostam de nadar na ilusão até nem discuto, mas se cegar perante uma contaminação incisiva é no mínimo trabalhar para sua infelicidade própria. Em parte a própria psicologia explica o fascínio da pessoa pela dor e queixa constante, forçando o ambiente a consolar tal indivíduo tão desprotegido.

Pensemos na questão do ciúme. O mesmo foi eternizado como uma insegurança ou fraqueza emocional do sujeito. Isto é uma análise superficial, pois em verdade o ciúme é o mais profundo sinal ou indício de uma futura ruptura ou perda. A pessoa presa de tal sentimento não visualiza que seu excesso nada mais é do que uma antevisão da ruína de seu projeto afetivo. O ciumento amplifica suas emoções negativas e traz também as do parceiro para seu caldeirão íntimo de sofrimento. Outra essência do ciúme é o mais puro complexo de inferioridade, pois a pessoa já intuiu que será derrotada neste campo, ou que poderá haver repetição de vivências dolorosas que já experimentou. Tal processo pode acompanhar o sujeito à vida toda, caso o mesmo não procure ajuda psicológica para desfazer tal trava emocional. E sobre a carência, como se desenvolve?A pessoa que cresceu sob a ótica de tal condição acaba desenvolvendo um mecanismo curioso de compensação. Ao mesmo tempo em que se sente negligenciada em seu direito afetivo histórico, têm a convicção interna de que algo muito especial ainda estaria por vir; o problema é dimensionar o tempo que irá suportar tal espera, sendo que o tédio ou desânimo não tardarão a assolar tal indivíduo. A carência é a exploração máxima da paciência e expectativa perante um retorno afetivo do outro, que pode nunca ser efetivado. É a interrupção plena da liberdade para escolher novas pessoas que possam satisfazer a necessidade de amor do indivíduo, sendo que o mesmo irá insistir na sua dor pessoal de rejeição e conseqüente reparação.

O sofrimento afetivo mais cedo ou tarde cobrará uma definição. Ou irá ocorrer uma busca desenfreada por algum tipo de reparação como foi dito, ou a energia será direcionada a algo novo. O apego é o pilar máximo da sustentação do processo da carência. É fato que boa parte do esforço infrutífero gasto por determinada pessoa diz de algo que jamais poderá ser reativado, ou mesmo que o fosse talvez não teria a mínima importância. Há duas formas de se lidar com a perda e todos já as notaram: nos tornarmos mais fortes e reagirmos com toda a tristeza oriunda do evento traumático, gerando um dever de melhorar em conflito com a dor; a segunda é a depressão propriamente dita, sendo a recusa da reação por não enxergar um sentido além do apego ao evento mórbido.

A trajetória emocional se assemelha à órbita elíptica de um meteoro que acaba sempre retornando infinitamente. É curioso que quando uma terapia retira em parte a angústia da pessoa, se volta exatamente ao ponto onde tudo começou, segundo inúmeros relatos de pacientes. Este é um dos segredos mais impressionantes da mente humana, devendo ser estudado a fundo. O conflito não segue uma órbita hipérbole, passando apenas uma vez perante determinado ponto, mas têm exatamente essa função de repetição de um espaço já percorrido. Foi exatamente esta questão que FREUD interpretou como a compulsão para repetir determinado evento traumático. O fato é que tal retorno se dá pelo lado afetivo recalcado, sendo que para FREUD a libido ou energia sexual seria o ponto de concentração energética mais forte do ser humano. O desejo se alimenta então justamente de seu oposto, a frustração, e se a mesma assolou o indivíduo de uma forma intensa, irá gerar um tipo de volição ou expectativa quase que eterna perante a realização de um fato almejado. Novamente se torna desnecessário dizer que o apego perante algo tão remoto bloqueará totalmente a capacidade atual da pessoa pela busca de seu prazer pessoal.

Está-se dizendo aqui que o lado emocional caminha em círculo, caso não seja quebrada sua estrutura neurótica. Sem dúvida alguma este é um trabalho que poucos se deram conta de sua necessidade de efetivação. É justamente neste ponto que entra o problema do amor, pois o mesmo deve ser algo totalmente novo e original com outro ser humano, no qual se confiará a experiência do desejo e prazer; caso não ocorra tal situação a relação se torna mera arena para se reviver todo o drama familiar passado e o mais legítimo complexo de inferioridade. A experiência real e profunda do amor implica em não se sentir tão afetado, humilhado ou destruído pelo passado.

Quando realmente podemos dizer que conhecemos nosso parceiro amoroso? Com toda a certeza quando conseguimos visualizar todo o seu potencial construtivo e destrutivo. Este último é freqüentemente confundido com a agressividade. Claro que não estamos falando aqui da violência física, mas tentando desmistificar o problema do que realmente seja a agressão. Uma das coisas mais cruéis nas relações é justamente a sedução perante uma pessoa e conseqüente retirada do relacionamento. Isto infelizmente já virou uma espécie de jogo sádico moderno. Ao invés de nos iludirmos constantemente com a beleza ou fascínio sexual por alguém, seria interessante avaliarmos a capacidade dessa pessoa para a reciprocidade. O mais perfeito retrato da sala de espera do inferno se dá quando um dos parceiros sente que o outro é o mais puro e ideal objeto de amor para o mesmo, porém, não ocorre à mínima seqüência ou correspondência. A análise do problema do amor não correspondido passa por vários tópicos, mas o principal é a escolha de uma espécie de ícone incapacitado para a troca. A busca pela beleza ou sensualidade que pode acarretar a não correspondência diz muito mais de uma pessoa imbuída de um profundo complexo de inferioridade, que busca na outra uma compensação de sua problemática, tornando-a um troféu que possa encobrir seu drama pessoal não resolvido. É a princípio um acordo mútuo entre duas pessoas extremamente ambiciosas, uma por ser venerada por seus dotes físicos, e a outra para provar aos outros sua glória por ter conseguido algo tão valioso apesar de sua limitação na autoestima; não precisamos lembrar que tal contrato possui uma curta duração.

Confesso que a coisa mais estranha ou sombria que ouvi na vida foi determinado relato de uma pessoa que disse ter encontrado o parceiro ideal, mas estava morrendo de medo do amor propriamente dito. É chocante tal relato justamente pelo sujeito intencionalmente abrir mão de uma experiência de quase puro êxtase. A primeira explicação já foi dada acima; a pessoa encara o amor como uma submissão ou inferioridade, buscando um parceiro que se doe muito mais do que ela. Mas como se manifesta o medo do amor nos homens e mulheres? Nos primeiros historicamente pelo desleixo, indolência e a infidelidade conjugal, dando uma mensagem explícita de que jamais criará raízes profundas em qualquer tipo de relação. Este problema está associado também à questão da timidez, pois tal distúrbio tem a característica de afastamento de todo tipo de envolvimento emocional profundo. O tímido apenas ensaia gostar e amar, sendo que sua meta principal é cavar apenas uma trincheira de isolamento e proteção perante o contato social. Seu medo central é passar por uma situação de prova, e o amor é o teste supremo da intimidade de um ser humano, assim sendo, irá renegar todo tipo de entrega, embora tal problema pertença a ambos os sexos.

Na mulher o medo do amor principalmente em nossa atualidade se dá pela agressividade ou qualquer tipo de cobrança irreal perante o parceiro. A própria condição hormonal da mulher é a mais pura prova disso. A tensão pré-menstrual exacerbada diz psicologicamente de uma mulher que reprimiu ou não sabe lidar com seu potencial agressivo, e a alteração hormonal é a válvula de escape para todos os seus instintos negados, tomando por completo a pessoa. É como um estado de embriaguez em que se expõe toda sua agressividade; esta no lado masculino visa à competição, embora as mulheres também adotem tal conduta. Mas para as mesmas a agressividade é o bloqueio central que interrompe a entrega. A análise psicológica profunda de tal conduta irá revelar que tal pessoa está revivendo longínquas experiências paternas com seu atual parceiro, onde o núcleo é definir emocionalmente a figura masculina como sendo raivosa, embora isto também não deixe de ser uma projeção de seu emocional. A catástrofe afetiva é a intersecção mórbida entre pai e amante, não um complexo de Édipo como a psicanálise enxerga, mas a convicção feminina de que o parceiro sempre a usou para desafogar seus mais sádicos instintos. A seguir começa a surgir o ódio e desejo de retaliação. Na verdade a culpa do homem por tal situação é encarar a afetividade como uma espécie de esquema bancário, achando que sua companheira tem o dever inato de suprir todas as suas necessidades pessoais, com o mínimo de troca possível, esta sim é a essência do chamado machismo, não desejar enxergar, ajudar ou colaborar com sua parceira. Para a mulher, restou o pânico atávico de se sentir usada o tempo todo.

O problema da mulher no campo afetivo e sexual é exatamente se sentir instável perante o poder que detém sobre o gozo e satisfação masculina. Outra contradição é se irá se aliar psicologicamente a uma mãe traída e denegrida pelo pai, ou se simplesmente realiza seu potencial amoroso. Como poderá se libertar da servidão voluntária e involuntária perante uma genitora queixosa e que usa freqüentemente sua infelicidade para manipular o ambiente? A questão central é se tanto homens e mulheres realmente conseguem investir no relacionamento, ou se tornam apóstatas perante o amor, apenas ruminando seu passado familiar infeliz. Todo o ideal do romantismo e religiosidade caem por terra, pois o ser humano jamais esteve preparado para a experiência do amor, lhe faltando à educação adequada para a execução de tal meta. O “analfabeto emocional” está encarcerado de todo tipo de sentimento destrutivo que aborta um relacionamento. Um projeto sério de alfabetização afetiva deve levar em conta todas as etapas do desenvolvimento humano. Nas crianças e adolescentes redobrada atenção em relação aos malefícios do mimo e narcisismo, pois ambos colocam a pessoa num patamar onde jamais conseguirão enxergar o outro. Os pais devem escolher se seus filhos serão especiais por competirem e humilharem seus rivais, ou então se estarão atentos e receptivos para uma troca onde todos tenham seu espaço e importância na relação.

Nos adultos o projeto eficiente de alfabetização emocional é desenvolver formas maduras de lidar com todos os tipos de sentimentos negados ou negativos: ódio, raiva, rancor, inveja, mágoa, tristeza, vingança, frustração, apego, saudade mórbida, dentre outros. Há também a necessidade de se perceber o custo na esfera afetiva no decorrer da vida, seja o preço a ser pago pela solidão, ou a carga que recebe da pessoa desejada, assim como o impacto de sua conduta emocional perante as pessoas mais próximas. A experiência do amor seria muito mais fácil para alguém que já a tenha saboreado plenamente no âmbito familiar. Embora tal conceito possa parecer um tanto antiquado, ainda é totalmente válido na dinâmica dos relacionamentos. Quando não se teve uma experiência de tão ampla magnitude e importância, a tendência é buscar fora do ambiente privado e familiar tal necessidade básica, com todo o atraso possível; o problema é que quando alguém procura algo imbuído de carência e privação afetiva, despertará ao mesmo tempo todo o sentimento negativo descrito anteriormente, pois o amor obedece também a condutas em conformidade com o desenvolvimento e crescimento da pessoa, muitos não percebem que clamam pelo mesmo de uma maneira totalmente inadequada ou infantilizada. A cura não passa apenas pelo encontro, até porque ninguém jamais terá certeza do amor em nossa era perante o parceiro, mas principalmente por se revelar e exigir que o outro tome atitude semelhante; desnudando seu ser.

Outro ponto indiscutível é que tendo ou não um relacionamento, quase todos estão tristes, descontentes ou insatisfeitos. Todos os elementos descritos neste texto dizem do correlato do amor, que é o ódio. Sentimento totalmente negado pela cultura e moralidade, mas que assola totalmente os relacionamentos. O primeiro passo para o incremento do ódio é não ter a consciência de que as pessoas mais íntimas é que colaboram para o crescimento de dito sentimento. O início sempre é algum tipo de contrariedade ou injustiça, passando para uma experiência de ligação diária e constante em relação ao objeto ou pessoa que causou a dor tão insuportável. Mas o ódio maior é quando se tem a certeza subjetiva de que o outro poderia completar totalmente a pessoa, mas se recusou em seu esforço ou competência para tal finalidade, conforme apontei acima. O ódio começa a surgir quando percebemos nossa miserabilidade afetiva, e o quanto está se mendigando afeto e atenção. O ódio é uma espécie de ritual ou neurose obsessiva, algo como um totem para que a própria pessoa o cultivando constantemente se lembre da experiência da dor e tente não repeti-la. O problema é que tal processo se torna quase que infinito; é como os orientais faziam uma alegoria de uma serpente comendo a própria cauda, o que representaria um ciclo interminável.

A devoção a um evento tão doloroso certamente nunca foi o melhor instrutor ou anteparo para não repetirmos determinada tragédia. A lembrança diária de um evento traumático em hipótese alguma forma uma blindagem para que tudo não possa se repetir, muito pelo contrário, o efeito é uma contaminação profunda do potencial emocional da pessoa. O preço do ódio passa pela amargura, e jamais alguém poderia acertar sua dose, pois a potência do mesmo é devastadora. Como seria possível usar um sentimento que já nasce com um déficit temporal? Se a reação é instantânea, advém a fúria com conseqüências gravíssimas, afora a culpa e arrependimento. Se optarmos pela espera da reação, o fato doloroso perde o sentido, e apenas resta o desejo de vingança. A grande descoberta é perceber primeiramente que talvez nossas escolhas não foram tão acertadas, pois acabamos atraindo indivíduos incapazes de compartilhar sonhos e desejos.

O ódio é essencialmente um cunho básico de projeção. É vermos a centelha mais íntima de nosso ser no outro com o aviso inexorável de quão difícil seria conseguirmos mudar, então partimos para o ataque e ruminação emocional dolorosa. A privação histórica de laços de ternura e demonstração de afeto é o combustível máximo de tal fenômeno. Retomando a questão da família, o ódio vai se solidificando à medida que seus membros vão fazendo um balanço completo de toda a agonia e miséria afetiva que experimentaram. Neste ponto começa um processo confuso e altamente neurótico, sendo a confusão de papéis fator reinante. A pretensa justiça pessoal se torna mesquinhez; a impulsividade totalmente efêmera; a vingança denota apenas uma prova de apego inútil e imaturo, aliado ao medo da incapacidade para criar ou recomeçar. Qual seria então o equilíbrio entre não vivenciar o caráter rancoroso corrosivo do ódio e também não insuflar o espírito pessoal com uma sensação eterna de injustiça e indignação que fazem mal do mesmo jeito? Para responder, temos de retomar a questão da culpa, pois a mesma foi e é um dos principais fatores da socialização e permanência da civilização, caso contrário, teríamos uma eterna luta pela supremacia ou complexo de superioridade.


De certa forma, é o que vemos no meio social, assim sendo, a culpa passa a ser o bônus incompleto que a biologia, genética ou antropologia deixou de legado para que o ser humano pudesse avançar para um outro plano de relacionamento. A civilização ao contrário do que FREUD descreveu, não é a sublimação da sexualidade para fins culturais, mas meramente o controle do ódio entre seus membros; sendo a manipulação plena do instinto para a sobrevivência do ego pessoal e que tal ato também traga um benefício coletivo. Crescer sozinho é apenas competição ou isolamento, sendo que a verdadeira evolução ou revolução é o transporte de características adquiridas e autoconhecimento para um patamar em que várias pessoas compartilhem uma experiência de êxtase perante a descoberta do sentido da existência pessoal e formas de manejar a sobrevivência sem aniquilar seus semelhantes. O objetivo final não é desanimar ninguém, mas que todos percebam a dialética da busca do prazer; sem a alfabetização emocional mencionada, a suposta satisfação se torna privação, o gozo, recalque, a convivência, palco constante de luta e conflito, e o desejo se tornará um instrumento de desenvolvimento de doenças psíquicas e físicas.

Mais importante do que procurar a gênese do ódio é descobrir a necessidade de agregação do mesmo em determinada pessoa ou evento. O chamado “foco do ódio” é a máxima liberdade para a consecução do êxtase do espírito destrutivo, aniquilando por completo a rivalidade ou a frustração que alguém pode causar. A ciência da psicologia até o presente analisou o fenômeno como sendo a necessidade do sujeito de se tornar vítima; embora tal visão esteja mais do que correta, é fundamental se acrescentar um fato: o impulso ou imperiosidade de se arquivar uma reserva mental destrutiva. Mas em que circunstância seria utilizada? O ódio pode ser uma defesa prévia contra qualquer tipo de ataque ou rejeição, assim como assinala a dificuldade de determinada pessoa em preservar seus relacionamentos. Ambos traços de caráter assinalados vivem constantemente a tragédia, mas o ódio também é uma fronteira hermética contra o desespero, que é a prova final do esforço infrutífero na capacidade pessoal de despertar interesse para alguém. Nossa cultura estabeleceu uma associação religiosa quando se fala em ódio, trazendo sempre em paralelo a questão do perdão. O mesmo se tornou um mero instrumento propagandístico para todas as religiões, pois muito mais importante do que falar em perdão é verificar se a pessoa tem estrutura e condição psicológica para efetuar tal tarefa. Esquecer o evento traumático é superar a sensação de miserabilidade na mais íntima esfera pessoal, desenvolvendo recursos que sempre assinalem para o indivíduo que ele pode novamente recomeçar. O perdão só é viável quando seu pilar mais forte, o apego é atacado frontalmente; o grande problema é que o esquema social acarreta uma imensa sensação de déficit na área do prazer e realização pessoal.

A coisa mais comentada pela psicologia e conseqüentemente receitada em um século de sua existência foi o preceito de que a pessoa deve lidar melhor com sua ansiedade, angústia ou com tudo o que a chocou, mas como isto é possível, com tantos processos paralelos e sabotadores da paz de espírito? Esta sem dúvida alguma é a pergunta suprema e inacabada para a cura ou profilaxia de todo conflito ou neurose. A psicanálise advogou a necessidade de remoer as antigas experiências infantis no sentido da pessoa perceber que sua energia está retida em determinada etapa do desenvolvimento humano, ou como FREUD dizia, manteve “tropas em excesso” em determina área que clama a todo o momento por uma satisfação ou descarga. A psicologia comportamental enfatizou que o sujeito deveria mudar sua conduta diária, no sentido de perceber que suas atitudes estão completamente viciadas para a obtenção do crescimento e satisfação pessoal. Não se trata de desenvolver a força de vontade propriamente dita, mas que a pessoa perceba a importância e impacto de como age perante seu meio; como suas ações se transformaram num ritual de prejuízo pessoal. Passado e presente não deixam de ser a dicotomia ou luta de opostos para a obtenção de uma melhora psicológica. Tanto a pessoa que não consegue repor sua origem familiar de carência, quanto àquela que não consegue alterar um comportamento inadequado, sofre em demasia e isto é um fato absoluto. Mas neste ponto quero estabelecer um outro conceito da neurose.

Quando falamos em distúrbio neurótico, não podemos apenas pensar em sintomas ou conflitos. Temos de entender que a neurose atinge o ápice quando em todas as áreas que a pessoa atua (profissional, afetiva e sexual), o resultado é o mais puro “stress” para si mesma ou o meio circundante. A parceria de ambos os fenômenos nos dá uma dimensão segura de que a pessoa não consegue manter o equilíbrio ou controle sobre sua conduta e regularidade da satisfação. O que poderíamos chamar de suposta “felicidade”, é constantemente inundada por todo o tipo de vivências ou lembranças de carência ou privação. A neurose em última instância é a compulsão inconsciente para sabotar o ritmo biológico e mental, desprezando a autoestima e anulando o autoconhecimento. Convencionou-se o preconceito que ir ao psicólogo é sinônimo de distúrbio ou loucura; a cada dia penso exatamente o oposto, há um fosso intransponível entre ambas, pois a terapia é um espaço primordialmente para uma reflexão lúcida acerca dos sentimentos e condutas que afetam o indivíduo e as pessoas ao seu redor. A terapia serve para os que não fizeram seu dever de casa nas seguintes áreas: amor próprio, afetividade, sexualidade e poder pessoal. Serve ainda aos que se conscientizaram de que seu mais profundo desejo se transformou num quebra-cabeça pela dificuldade de realização, mas que a energia que o mantém permaneceu intacta no transcorrer da vida da pessoa (isto é a esperança no mais profundo grau). A loucura propriamente dita necessita ser tratada num espaço onde se possa manobrar a imperiosidade da socialização da pessoa humana, isto não significa a internação, mas apoio grupal para o resgate das potencialidades da pessoa.

O amor é o mais tenro e frágil sentimento que a qualquer instante é soterrado por todos os seus acompanhantes negativos descritos neste estudo. Se afastar da visão ingênua do romantismo é perceber o quanto o amor é quebradiço e necessita de um cuidado constante, ao contrário do que estamos acostumados a vivenciar, como uma espécie de paixão que podemos nos regozijar a vontade, sem nunca cessar seu fluxo. Já o ódio reflete a dicotomia entre o complexo de superioridade e inferioridade como dizia o psicólogo ALFRED ADLER; Ambos os fenômenos mantém uma estreita relação de interdependência. Se alguém se julga inferior, pode complementar tal falta com um desejo de superioridade econômica, estética ou sexual; o contrário também é válido, a pessoa que se sente num patamar superior pode desenvolver todo tipo de culpa e arrependimento que a coloque novamente num patamar inferiorizado. O ódio retém uma longínqua defasagem na questão da autoestima. As primeiras fases narcisistas do desenvolvimento da criança são a pista segura para tal tese. O ódio se desenvolve justamente quando se sente que a figura julgadora e que poderia reforçar tal narcisismo infantil foi omissa. Advém então a cólera, forçando o ambiente a proporcionar o que lhe é devido. A antiga necessidade de exclusividade e liderança agora desponta num déspota em seu círculo emocional.

Repetir e viver intensamente a dor agora é o motivo pleno da vida do sujeito. Foi literalmente excluído de seu direito ao prazer ou uma vida regular de satisfação. É neste exato ponto que a intervenção terapêutica deve ser radical, combatendo não apenas o vício de sua visão pessimista e sombria, mas mostrando à pessoa que constantemente sabota aquilo que mais procurou. Desenvolveu a intolerância perante o fluir das emoções, abdicando do gozo pessoal pela competição e disputa de poder, se tornando o mostruário exato dos processos econômicos e sociais perpetrados diariamente em nosso meio.

O ódio se alinha totalmente a um desejo de liberdade frustrado. A saída seria concentrar a energia no potencial próprio visando novas etapas de criatividade e desenvolvimento; porém não é o que ocorre, sendo que a reação de rancor e o investimento no confronto são o que prevalecem na maioria das vezes. Lembro-me de um sonho de um paciente que ilustra categoricamente tal afirmação: “sonhei que vários indivíduos construíam foguetes particulares para irem a lua e outros planetas como marte, por exemplo; boa parte morria na jornada por a nave não ter estrutura e oxigênio suficiente; apenas alguns retornaram; sendo que na exploração descobriram perigos inimagináveis para a raça humana; eram totalmente negligenciados na volta e não obtiveram nenhum apoio governamental”. Sem dúvida a mais profunda coragem é o rompimento; mais ainda se pensarmos no desafio perante a única controladora do processo espacial no mundo; este é um sonho em que o desejo de liberdade atinge seu ápice. A essência da neurose como descrevi no texto é esta: a luta interminável para desenvolver uma meta nova em vários campos versus o conflito por reaver o que se sente retirado e negado. Coragem então é o avanço, e a neurose é não somente a pedra neste trajeto, mas o total desânimo e desconsolo para o recomeço.