Autoconfiança
Os sentimentos de autoconfiança se desenvolvem a partir de contingências de
reforçamento não sociais. Também das sociais, mas com ênfase diferente como se verá.
A dimensão fundamental para desenvolver autoconfiança é que a criança tenha a
possibilidade de emitir um comportamento e, então, produzir conseqüências no seu
ambiente que fortaleçam tais comportamentos. Assim, por exemplo, se uma pessoa
arremessa uma bola na cesta de basquete e acerta, a bola entrando na cesta reforça
positivamente o comportamento de arremessá-la (não há necessidade de outra pessoa para reforçar o comportamento).
Ou, uma pessoa com uma chave na mão a gira na fechadura e abre a porta. O comportamento de girar a chave é reforçado pela porta aberta. Ao subir pelos ramos de uma árvore, a criança alcança a manga madura, apanha e come-a. A manga é o reforço positivo.O sentimento de autoconfiança está associado aos comportamentos bem sucedidos. Outra classe de contingências de reforçamento ocorre quando o comportamento remove uma condição aversiva (pode-se falar em reforçamento negativo, pois, ao
contrário do positivo, aqui o comportamento se fortalece quando se retira ou se subtrai
alguma coisa conseqüente ao comportamento). Assim, ao usar o extintor de incêndio
adequadamente (comportamento), a pessoa apaga o fogo (remove um evento aversivo);
ao fechar a janela do carro em movimento, cessa o vento frio; ao mexer na tecla do
volume, a intensidade do som ambiente se reduz para um nível suportável etc.. A
autoconfiança é um sentimento que surge das contingências de reforçamento (positivo
ou negativo). Diz-se que uma pessoa com sentimento de autoconfiança é “segura” e
“confiante”, “tem iniciativa” etc. “Segura” e “confiante” significam que a pessoa sabe
que comportamentos deve emitir para alcançar reforços positivos ou remover eventos
aversivos. “Tem iniciativa” significa que num contexto determinado emite, sem ajuda de
outra pessoa, a resposta adequada, aquela que produz conseqüências gratificantes ou
remove eventos aversivos. Se as conseqüências para o comportamento são de natureza não social, então o que os pais podem fazer para desenvolver autoconfiança em seus filhos?
Em primeiro lugar, os pais devem criar condições para que os filhos emitam os
comportamentos que serão consequênciados e não fazer os comportamentos pelos filhos.
Assim, se uma mãe vai até a padaria e pede para o filho esperá-la no carro, enquanto ela
desce, compra o pão, o leite e um docinho que entrega para o filho, essa mãe não criou
condições para o filho emitir comportamentos. Se, pelo contrário, ela lhe diz: “Filho,
desça e compre pão, leite e um docinho para você, enquanto estaciono o carro”, ela
criou oportunidades para o filho se comportar e ser consequênciado positivamente.
Assim, a criança pede o pão e a balconista a reforça entregando-lhe o pão. Vai até o
caixa que a reforça dando-lhe o troco etc. Ou seja, a mãe criou as oportunidades e a
criança emitiu vários comportamentos e todos foram reforçados. A criança, então, se
sente capaz, segura, autoconfiante. Esta é uma boa maneira para se iniciar o processo de
separação entre mãe-criança, sem que esta se sinta abandonada ou desamparada. Quando
a mãe faz tudo pela criança e com a criança, ocorre um apego exagerado entre elas e a
separação da mãe, mesmo por curtos períodos, se torna aversiva para a criança que tem,
então, reações emocionais como: choro, birras nos momentos de afastamento e mais
tarde, se não for alterada a situação, podem aparecer fobias sociais ou de situações. A
fobia escolar, dificuldade que a criança mostra de se separar da mãe para entrar e
permanecer em sala de aula, tem quase sempre a origem descrita. Da mesma maneira,
pais que incentivam seus filhos a emitirem comportamentos motores, tais como subir em
árvore, em escadas, andar sobre uma mureta, jogar bola etc.. criam condições para as
crianças obterem reforços positivos naturais provenientes das próprias atividades e
brincadeiras e sentirem-se autoconfiantes. Por outro lado, pais que impedem seus filhos
de emitirem tais comportamentos, impedem-nos de obterem os reforços naturais
provindos das atividades, restringem as oportunidades para desenvolverem habilidades
motoras e as crianças sentem-se com medo, inseguras, sem autoconfiança.
Em segundo lugar, não basta os pais criarem condições para o filho emitir
comportamentos, se essas condições não forem adequadas. Assim, se a árvore for muito
alta e os galhos distantes entre si, a criança não conseguirá alcançar a manga e se sentirá
frustrada e fracassada. Seu comportamento entrará em extinção. A criança poderá dizer:
“Tenho medo se subir em árvores.”; “Não quero brincar disso.”; “Não gosto de manga.”
etc. A solução seria os pais prestarem atenção na dificuldade da tarefa que vão propor
para a criança e adequarem as dificuldade da tarefa às habilidades da criança,
escolhendo uma árvore mais baixa, por exemplo. Outra alternativa é dar ajuda física para
a criança, de tal maneira que ela realize a tarefa com segurança. Por exemplo, ao subir
uma escada no parquinho, o pai pode segurar firmemente as mãos do filho, de modo que
ele suba todos os degraus com sucesso. Quando o filho demonstrar que sua habilidade
evoluiu, o pai pode reduzir progressivamente a ajuda, até que os comportamentos de
subir e descer a escada ocorram sem hesitação por parte da criança. No exemplo da
padaria, a mãe deveria descer do carro com o filho nas primeiras tentativas, entrar com
ele na padaria e ajudá-lo a ter sucesso nos seus comportamentos. Por exemplo,
chamando a balconista e lhe dizendo: “Meu filho quer lhe fazer um pedido.” O resto do
encadeamento de respostas, então, pode ficar para o filho executar. O ponto importante é
que assim a criança adquire os comportamentos esperados, praticamente sem cometer
erros. É desta maneira que se pode desenvolver o sentimento de autoconfiança que
acompanha o comportamento bem sucedido.15
Quando a criança é solicitada a ter desempenhos muito complexos para seu nível
de desenvolvimento, ela pode se recusar a atender o pedido da mãe, eventualmente pode
chorar ou dar uma desculpa: “Não quero pão.”; “Não quero chocolate.”, quando de fato
está dizendo: “Não quero entrar sozinha na padaria.” Às vezes, a criança não se recusa
a atender o pedido (isso ocorre quando as contingências são fortes: ou há excessivo
elogio pelo desempenho ou ameaça de crítica, repreensão pelo não cumprimento da
tarefa), mas ao cumprir a tarefa sente-se também ansiosa. Os pais deveriam estar atentos
a esta possibilidade antes de proclamarem com orgulho que seus filhos desde muito
pequenos já pareciam adultos (por sinal, um mau indicador de desenvolvimento
emocional). Altas exigências de desempenho devem ser evitadas. Existem situações
especiais em que se exige alta precisão de desempenho (numa micro-cirurgia, por
exemplo) ou esforços exagerados (numa maratona olímpica, por exemplo), mas são raras
portanto. Se houver necessidade de desempenho complexos, é apropriado aguardar a idade em que a criança tenha já adquirido os padrões comportamentais de pré-requisito necessário para alcançar os padrões mais complexos sem esforço exagerado. Finalmente,
a modelagem de tais comportamentos complexos deve ser feita por pessoas qualificadas para isso (professores, treinadores etc.)
Uma terceira maneira pelo qual os pais podem ajudar os filhos a desenvolver autoconfiança é permitir-lhes e até incentivarem-nos a explorar o ambiente. Deixem a criança se locomover livremente, sempre se mantendo vigilantes para evitar situações de perigo. Esperem a criança explorar a situação, se for necessário guiem-na pela mão ou chamem-na para um lugar mais seguro. Não gritem: “Cuidado, você vai cair e se machucar.” Também é completamente contra indicado prevenir a criança sobre os eventuais e imaginários perigos da situação, antes mesmo que ela comece as atividades:
“Cuidado com as aranhas.”; “Não vá cair num buraco”. Frases desse tipo geram
ansiedade, insegurança e inibem os movimentos das crianças. Se forem persistentes,
não evitá-los. O melhor procedimento é dar à criança um bom modelo de como lidar com o acidente: ajude a criança a se levantar, pergunte-lhe onde dói, diga-lhe o que vai fazer, com clareza e honestamente: “Vou lavar seu dodói. Vai doer, mas você consegue
agüentar”; “Vamos até o hospital para o médico ver o que precisa ser feito...” etc.. Reações exaltadas e exageradas assustam a criança e não a ensinam como lidar com adversidades. Até nas situações dolorosas é possível ensinar a criança comportamentos
adequados para reduzir o dano e desenvolver autoconfiança.
Há situações, como as atividades acadêmicas, por exemplo, em que o comportamento da criança não pode ser modelado por conseqüências naturais, mas há
necessidade de conseqüências verbais. Os mesmos princípios comportamentais básicos
que foram apresentados para as contingências naturais se aplicam também quando as
conseqüências são verbais. Assim, por exemplo, se uma criança de 4 anos procura contar
um fato e é interrompida pelo irmão de 7 anos, o comportamento narrativo dela é punido
pelo irmão. Os pais, nesta situação, poderiam pedir ao mais velho que não interrompesse 16
o menor e, ao mesmo tempo, olhar fixamente para o filho mais novo, dando-lhe
completa atenção enquanto ele fala, e fazendo gestos de aprovação para mantê-lo
verbalizando. A criança será, assim, reforçada socialmente pela sua narrativa e terá
sentimentos de autoconfiança produzidos pela contingência reforçadora. O método
socrático de fazer perguntas simples o suficiente para serem respondidas corretamente,
mas encadeadas de tal forma que cada pergunta seguinte evoca uma informação
adicional, até que um conteúdo complexo tenha sido exposto pela criança, é outro
recurso que os pais podem empregar. Os pais podem também auxiliar seus filhos na
realização bem sucedida das tarefas de casa e lições de estudo, organizando o material
em segmentos fáceis de serem respondidos e aprendidos. A criança é, assim, reforçada
pelo que aprende, pela professora e pelos pais. A fim de não criar dependência dos pais
para o estudo, eles devem ir removendo sua ajuda gradual e sistematicamente até que a
criança faça a tarefa e estude a lição sem nenhum auxílio adicional. A realização bem
sucedida de uma tarefa produz reforços e sentimentos de autoconfiança.
Enquanto as contingências que produzem sentimentos de auto-estima têm que ser
necessariamente reforçadoras positivas, as contingências que produzem sentimentos de
autoconfiança podem ser positivas ou negativas. Assim, auto-estima é um sentimento
que geralmente não se associa com ansiedade ou medo, mas sim com bem-estar,
satisfação. O sentimento de autoconfiança, por sua vez, pode estar associado a bemestar, satisfação, bem como com ansiedade, medo, alívio. As contingências reforçadoras
positivas manejadas pelos pais para produzir sentimentos de auto-estima visam,
primordialmente, a pessoa. As contingências reforçadoras manejadas pelos pais para produzir sentimentos de autoconfiança visam, primordialmente, os comportamentos.
Apenas didaticamente separam-se as contingências que produzem sentimento de auto-estima, daquelas que produzem sentimento de autoconfiança. Ambos os grupos de contingências interagem entre si e as duas classes de sentimentos vão se desenvolvendo
simultaneamente. Em casos mais extremos, é possível observar diferentes níveis de sentimentos de auto-estima e de autoconfiança. Assim, famílias super-protetoras podem gerar filhos com elevados sentimentos de auto-estima (recebem mais reconhecimento do
que seus comportamentos reais justificariam receber), mas com repertórios limitados de comportamentos para enfrentar a vida cotidiana, ou seja, repertórios que não produzem conseqüências gratificantes. Como tal, também os sentimentos de autoconfiança, neste caso associados a situações de insucesso, são pouco desenvolvidos. O resultado é uma pessoa dependente dos outros para lidar com seu contexto de vida, mas que gosta de si
mesma com exagero (seriam descritas como egoístas). Outras famílias podem ser
indiferentes, distantes dos seus filhos, que vivem quase como órfãos de pais vivos, mas
que, exatamente por isso, desenvolvem complexos repertórios de comportamentos bem
sucedidos e elevados sentimentos de autoconfiança. No entanto, a pobreza de
contingências reforçadoras positivas e de reconhecimento vindos dos outros produzem
baixos sentimentos de auto-estima. São pessoas que podem ser eficientes na sua atuação
profissional e cotidiana, mas são dependentes afetivamente de outras pessoas, sensíveis à
perda de afeto e de companhia (deprimem-se quando estão solitárias) e fazem, em geral,
péssimas escolhas afetivas.
A criança que emitiu comportamentos e foi reforçada aprende a tomar iniciativas, a
resolver problemas (emite respostas até ser reforçada pela solução do problema), a
persistir diante de tentativas fracassadas até alcançar o sucesso, torna-se independente
dos outros, já que ela se basta para conduzir sua vida e para enfrentar as dificuldades do 17
cotidiano e desenvolve sentimentos de segurança, satisfação, coragem etc.. A criança
que foi impedida de emitir comportamentos fica privada de reforços positivos, apresenta
déficits de comportamentos motores e verbais, não aprende a tomar iniciativas
(comportar-se na ausência de controles manejados por outros), nem a solucionar
problemas, desiste, facilmente, diante do insucesso, torna-se dependente dos outros e
desenvolve sentimentos de medo, ansiedade, insegurança, fobias etc..
Alguns exemplos de interação entre pais e filhos que aumentam ou diminuem a
autoconfiança
1. “Canso de lhe dizer que precisa melhorar sua letra. Será que não entende minha
língua?” Pai pune o comportamento de escrever do filho.
2. “Vou ajudá-lo um pouquinho mais. Segure firme. Assim mesmo. Agora você pode
subir o que falta sozinho”. Pai dá ajuda física que permite ao filho completar com
sucesso a tarefa de subir numa torre.
3. “Não adianta reclamar que tá difícil fazer a lição de Física. Você tem que estudar
mais e se virar. Sua profissão é ser estudante”. Pai recusa-se a dar ajuda ao filho,
pune o comportamento atual de estudar e faz exigências de desempenho.
4. “Mãe, segure na mão do Joãozinho para ele entrar no banco de trás do carro, mas
não o carregue. Ele precisa fazer algum esforço.” Pai orienta a mãe para dar
alguma ajuda, mas não realizar o comportamento pela criança.
5. “Viemos aqui para a praia para nos divertirmos. Fiquem à vontade. Só não vão
muito longe sem nos avisar”. Os pais criam oportunidade para os filhos explorarem
um ambiente novo e propõem um mínimo de restrição.
6. “Sua dor de garganta só vai sarar com a injeção que o médico receitou. Vou ajudar
você. A picada vai doer, mas se você ficar quietinho e “molinho” dói menos. Vou
abraçar você...” A mãe esclarece o que vai acontecer, orienta como o filho deve se
comportar para lidar com a injeção aversiva, não permite fuga e dá-lhe afeto.
7. “No convite diz que os pais devem deixar os filhos na porta do salão de festas e vir
buscá-los à noite. Não vou entrar com você, mas lá dentro você vai encontrar seus
amiguinhos”. A mãe deixa claro que haverá a separação, mas que o
comportamento de entrar sozinho será reforçado pelo encontro com os
amiguinhos.
8. “Não precisa ter medo de ir jogar futebol. Você não é um craque, mas quem ganha
ou perde é o time. E, não interessa apenas ganhar. Você tem amigos lá, pode
arrumar outros. Não importa só o resultado do jogo, importam também os ganhos 18
sociais”. Pai mostra outros reforços que o comportamento de jogar a partida pode
proporcionar e não estabelece critérios altos de desempenho.
9. “Meu pai queria que eu controlasse minha alimentação. Eu já era gordinha nos
meus 8 anos. Sorvete só uma vez por semana, sempre aos domingos à tarde. Uma
vez vi umas meninas chupando sorvete durante a semana e disse para meu pai: -
Bobas elas, né, pai? Chupando sorvete em dia de semana”. A preocupação é com as
exigências que o pai faz sobre o comportamento, no caso “chupar sorvete durante
a semana está errado”, e a filha consegue abrir mão do sorvete e até achar errado
o que as meninas fazem.
10. “Minha mãe me disse que eu tenho um rosto tão lindo que é uma pena eu não fazer
regime. ‘Se você fosse feia, eu nem pensaria no corpo’, ela completou. Eu entendi
onde ela queria chegar”. A filha discriminou que a mãe não estava elogiando seu
rosto, mas estava preocupada em levá-la a controlar os hábitos alimentares. A
frase da mãe poderia ser entendida como uma dica ou como uma crítica. A filha se
sentiu “agredida” pela mãe.
Nos exemplos 1, 3 e 10, os pais enfraqueceram a autoconfiança, pois em 1 e 10
puniram o comportamento e em 3 não criaram condições para aumentar a probabilidade
de o filho ser bem sucedido (poderiam, por exemplo, estudar com ele ou arrumar um
professor particular). Nos demais exemplos, os pais atuaram de maneira a aumentar a
autoconfiança, mesmo em situações que produzem sofrimento (6), em contexto em que
o repertório do filho para ser reforçado positivamente ainda é fraco (8) e produz
privação de reforço positivo (9).
Questões que os pais devem se fazer para desenvolver autoconfiança nos filhos
Nas duas últimas semanas:
1. Eu criei condições para meu filho explorar alguma situação ou ambiente diferente e
obter aí reforçadores positivos naturais (levei-o a um parque, a uma fazenda, a um
passeio de bicicleta etc.)?
2. Eu explicitei altas exigências de desempenho para, só então, reforçar positivamente
seu comportamento?
3. Eu dei algum tipo de ajuda física ou verbal, de modo a tornar mais provável a
ocorrência bem sucedida de um comportamento do meu filho?
4. Eu critiquei ou, de alguma outra forma, puni comportamentos do meu filho?
5. Eu menti ou minimizei informações sobre as possíveis conseqüências aversivas de
um comportamento (injeção não dói, o cavalo é manso etc.)?
6. Eu realizei alguns comportamentos por meu filho para poupá-lo de conseqüências
aversivas (fiz a tarefa de escola por ele, por exemplo)?
7. Eu insisti em acompanhá-lo em situações que ele poderia (e deveria) enfrentar
sozinho?
8. Eu atendi aos pedidos de ajuda dele, poupando-o de se engajar em comportamentos
complexos, mas que com esforço ele conseguiria emitir com sucesso?
Fim...
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